Tudo que é humano me surpreende. Abstraindo as idiossincrasias dos atos teremos a mais pura essência daquilo que é o denominador comum destes seres tão fabulosos que habitam o planeta terra. Antes de tudo somos homens.
Antes de ser divinizado Jesus foi um homem e, partilhando conosco esta condição, ele é passível de todos os sentimentos, como qualquer mortal. É esse ser humano que é retratado em A Última Tentação de Cristo. Essa condição humana do nazareno causou rebuliço na época do lançamento do filme. Os puritanos (Ah, os puritanos…) logo bateram os pés e se rebelaram contra o filme. De fato, o filme não é nada bíblico, atrevendo-se a fazer uma releitura da história, mas essa ousadia em momento algum macula a imagem do Nazareno. Adicionar a Jesus a condição humana é engrandecê-lo. Se ser humano é depreciativo então nada mais tem salvação.
O filme começa com um Jesus (Willem Dafoe) perturbado pelas constantes alucinações que tem. Imagine-se como é ser o escolhido pelo criador! O desespero, a angústia é pungente. Ele está, nessa euforia aflitiva, trabalhando em sua oficina. Jesus é o único judeu que se dispõe a fazer as cruzes para o império romano. Logo entra pela porta um rebelde: Judas (Harvey Keitel). Esse é um grande amigo de Jesus e não se contenta em vê-lo trabalhar para os romanos. Jesus não se preocupa com a parcimônia da sua vida, a única coisa que o preocupa são as suas alucinações. Ele continua a fazer cruzes, até o dia em que decide ir para o deserto em busca de respostas para aquilo que tanto lhe aflige.
Aqui o messias parte para o evento que marcaria a sua vida. A sua primeira parada é em um prostíbulo (calma, não deduzam nada) onde ele vai ao encontro de Maria Madalena (Barbara Hershey) que é uma amiga de infância dele. Ao encontrá-la ela está seminua e exausta. Como os dois se conhecem desde a infância existe uma certa intimidade no ar. Maria logo lembra que tudo poderia ser diferente se ela tivesse encontrado respaldo em seu amor que nutria por Jesus. O messias logo recua e, para alegria dos puritanos, diz que é virgem e que têm o seu caminho traçado em algum lugar. Seguindo sua caminhada Jesus encontra uma espécie de retiro no meio do deserto. É aí que ele desenvolve a sua vontade de falar. Mas falar o quê? Ele não sabe. Só quer abrir a boca e falar ao povo. Certa noite ele sai da sua tenda e é surpreendido por um homem que fora contratado para te matar: Judas. Judas não cumpre a sua tarefa e, em troca, acompanha o nazareno na sua jornada. A princípio Judas nada entende dos princípios do seu messias, mas só o acompanha porque este promete explicá-lo no caminho.
Então Jesus parte para o encontro do povo. Ao impedir o apedrejamento de Madalena ele convoca os presentes para um discurso e, como mágica, as palavras fluem da sua boca. Daí em diante a história segue sem grandes mudanças, a não ser a ousadia proposta pela trama. A traição de Judas, por exemplo, não acontece nessa versão. Jesus pede a Judas que este o denuncie aos guardas romanos uma vez que este já sabia do seu destino.
A atuação de Willem Dafoe (Jesus) se destaca, e isso pode ser visto logo na primeira cena, quando Harvey Keitel (Judas) tenta convencê-lo a lutar contra os romanos. Keitel esbofeteia Dafoe com tanta falsidade (e frescura) que dá até vergonha comparar as duas atuações. Martin Scorcese faz questão de aproveitar as qualidades de Dafoe. Há várias cenas em que o ator está nú ou de peito aberto, mas ali já corre o sangue do personagem, não há nada a esconder. A roupa pode funcionar como artifício para facilitar uma interpretação. Dafoe atua com pouca ou quase nenhuma roupa, e dá um show.
Em A Paixão de Cristo (Estados Unidos, 2004) temos um Jesus pronto, preparado. Já no filme de Scorsese vemos como foi para um homem tornar-se lenda. As ironias aparecem em todo o filme, mas a mais saborosa é, na minha opinião, a parte em que Jesus senta para descansar em baixo de uma árvore e, ao ter fome, come uma maçã.
A revolta da igreja faz sentido, já que resolveu-se mexer numa imagem tão consolidada da instituição. Mas acima de todos os escândalos está o efeito produzido pela obra. Aquilo que nos desafia é muito mais gostoso do que o que já vem pronto. Ocorre que certas pessoas se ofenderam com o desafio e sequer viram todo o filme. Deveriam ter lido as minhas dicas sobre o filme e sua interpretação…
A última tentação de Cristo (The last temptation of Christ)
Estados Unidos, 1988
Direção: Martin Scorsese
Duração: 163 min
