Em 1497 Vasco da Gama parte de Portugal em busca do caminho marítimo para a índia afim de achar uma rota mais segura para o trânsito de especiarias. Em 2003 Manoel de Oliveira embarca Rosa Maria ( Leonor Silveira) e sua filha Maria Joana (Filipa de Almeida) em um cruzeiro marítimo em busca da história da civilização ocidental.
Rosa Maria é uma professora de História da Universidade de Lisboa que está indo ao encontro de seu marido (um piloto da aviação civil) em Bombaim. Ela aproveita a oportunidade e faz um cruzeiro pelo mar mediterrâneo visitando, junto com a sua filha, alguns pontos históricos que de alguma forma ajudaram a moldar a história do ocidente.
A primeira parte do filme é feita em forma de travelogue. Somos convidados a viajar junto com os personagens e conhecer os pontos históricos. A primeira parada é feita em Marselha (França). Uma breve conversa de Rosa Maria com um peixeiro sobre as reservas de petróleo francesas (que ficam depositadas em navios em Marselha) aponta ao espectador a qual ponto nós ficamos presos a este recurso natural. Aí também se encontra uma placa que diz ser Marselha o ponto de onde irradia a civilização para o ocidente. A seguir somos convidados a conhecer Nápoles (Itália). Uma breve visita à destruída Pompéia serve de escusa para que reflitamos sobre a impotência do homem contra a natureza. Aí também já se esboça uma idéia de religião,
quando Rosa Maria diz que os habitante e Pompéia foram punidos pela sua má conduta. A terceira parada é em Atenas (Grécia). Na acrópole se vêm as ruínas de imensos templos e teatros, lembranças de um tempo áureo do qual só restam ruínas. Ali a nossa dupla desbravadora encontra um padre ortodoxo, e logo se vê as duas correntes da mais influente religião no Ocidente: a Católica. Em Istambul (Turquia) visitamos a Igreja de Santa Sofia, uma igreja construída em 336 d.c que virou mesquita em 1453, quando Constantinopla foi conquistada pelos turcos, e museu em 1935. Entram em cena as divergências religiosas e a capacidade irracional do homem de guerrear. Já deu para perceber o quanto estamos aprendendo? Em Cairo (Egito) fala-se algo sobre a força do homem. Cita-se o trabalho braçal usado para desafiar a geografia e construir o Canal de Suez. Passamos agora para o Mar Vermelho e fazemos a última parada do filme em Adem ( Iêmen). Depois das viagens passamos para a segunda parte do filme. O diálogo assume o lugar o silêncio e das perguntas freqüentes da pequena Maria Joana. O Comandante John Walessa (John Malkovich) se encontra com três ilustres tripulantes do navio para uma conversa singular: Delfina (Catherine Deneuve), uma famosa empresária francesa; Helena (Irene Papas), uma atriz e cantora grega e Francesca (Stefania Sandrelli), um modelo italiana. Os quatro personagens conversam sobre carreira, amor, sucesso, fracasso e civilização. Cada uma fala em sua língua materna, o que criam, segundo o próprio comandante, uma nova Torre de Babel. Numa segunda vez Rosa Maria é convidada para se reunir ao seleto grupo. Como só o Comandante entende português todos são obrigados a falar inglês. Daí o filme segue para um final
surpreendente, que me faz calar, como se fosse a primeira vez que eu o visse. Nessa ousada epopéia Manoel de Oliveira destaca um personagem e lhe dá uma característica toda especial. Maria Joana, a pequena garotinha, é o que há de singelo no filme. As suas perguntas são pueris e até irônicas, “coisa de criança”.
Ao perguntar o porquê dos homens fazerem guerra a sua mãe responde, sempre didática, que isso é da natureza dos homens. Logo Maria Joana rebate: O que é natureza? Somos crianças que acompanhamos essa criança em tudo o que ela não sabe sobre o vasto campo da humanidade. O final, aquém de algo bárbaro e desumano, é só mais uma lição de humanidade.O silêncio também é notável nesta obra prima. Ele ocupa grande parte do filme, e não poderia ser mais apropriado. Momentos de contemplação devem ser calmos, tranqüilos, mudos.
Um Filme Falado
Portugal, 2003
Direção: Manoel de Oliveira
Duração: 96 min
