Arquivos para a Categoria ‘Grandes atores’

Rosas em campos desertos

30 / Março / 2006
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Quem assistir a O Jardineiro Fiel vai encontrar dois mundos diferentes em mescla. O primeiro é o romance que desabrochou entre a ativista política Tessa Quayle (Rachel Weisz) e Justin Quayle (Ralph Fiennes), o segundo é o conturbado jogo de interesses existente nas indústrias farmacêuticas que atendem ao imenso e paupérrimo mercado africano.
Tessa é uma mulher aficcionada pelos problemas que consomem o mundo, seja da guerra pelo petróleo no Iraque, da política imperialista dos EUA ou da fome que assola a África. Quando Justin Quayle é indicado para trabalhar no Quênia ela logo se propõe a acompanhá-lo. O seu fascínio pela causa é tão grande que ela parece se esquecer de si em prol do outro. A maravilhosa interppretação de Rachel Weisz reverte esse interesse da personagem em algo fascinante, real, espantando o símbolo de ativista-alienada que se apossou de tantos outros papeis similares (Angelina Jolie em Amor sem fronteiras é um ótimo exemplo de uma péssima atuação).
“Justin: Mas nós nem nos conhecemos direito
Tessa: Você terá tempo para aprender-me”
Justin Quayle é ofuscado pela presença de espírito de Tessa. O diplomata politicamente correto é visivelmente incomodado pela forma acalorada com que a sua mulher se agarra ao ativismo. Em tempos de crise conjugal Justin se apega cada vez mais ao seu passatempo favorito: a jardinagem. No começo do filme cheguei a pensar que Ralph Fiennes ia ficar neste marasmo o tempo todo, cometi um erro palmar… Com a misteriosa morte de Tessa (não estou contando o final do filme, fiquem tranquilos que isso ocorre ainda no início) o filme adquire um fôlego maior para o seu lado de suspense político. A perda da mulher amada faz com que Justin Quayle tome para si a causa que ela defendia. Cresce então a atuação e presença de Fiennes.
O drama político envolve uma empresa farmacêutica, que usava a população do Quênia como cobaia para testes de um novo medicamento, e o governo britânico, que acorbetava a atuação criminosa desta empresa. Justin resolve desmascarar essa prática, jogando contra todas as potências envolvidas. A mudança de hábitos do tão fiel diplomata se dá única e esclusivamente em virtude do amor que este nutria por Tessa.
Fernando Meirelles conseguiu contar e mesclar as duas histórias de forma que uma inspira a outra. Receava-se que este diretor do terceiro mundo se aproveitaria do thriller para puxar a sardinha para o lado político da história. Nada disso. É certo que o diretor se complica um pouco em desenvolver o lado romântico da história, a desenvoltura das cenas românticas não são tão boas quanto as do drama político, mas as duas histórias convivem e se misturam com maestria. As cenas que mostram a África não são apelativas, contribuindo imensamente para que o filme saia do clichê de piedoso para com os problemas daquele continente.
A atuação de Ralph Fiennes e, principalmente, de Rachel Weisz são excelentes. São essas atuações as responsáveis pelo valor dado ao amor na trama.

O Jardineiro Fiel (The constant gardener)
Inglaterra, 2005
Direção: Fernando Meirelles
Duração: 129 min.

A saga do homem sem nome

28 / Março / 2006
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O Western foi o primeiro gênero a se desenvolver na indústria cinematográfica americana, ainda no começo do século XX. Na écada de 60 surge na Itália um sub-gênero, o Western Spaghetti, que tinha como preocupação recriar a qualquer custo aquele estilo clássico. Os filmes são de baixo custo e geralmente mais violentos do que os originais americanos. Nesse sub-gênero destaca-se o diretor Sergio Leone, tendo sido ele o responsável pela criação do estereótipo do Western Spaghetti: O homem sem nome. A trilogia mais famosa de Leone é composta por Por um punhado de dólares (1964), Por uns dólares a mais (1965) e Três homens em conflito (1966).
Esse anti-herói foi ocupado pelo hoje emérito mas naépoca incógnito Clint Eastwood. Ele é o caçador de recompensas que atira, depois pergunta. Por mais clichê que seja é maravilhoso ver um cara mau encarado entrar num bar mastigando um charuto. Dois ou três segundos depois pode começar a contar os tiros. Esse papel, hoje, combina muito bem com a mise en scéne (posição e movimentação do ator em cena) de Eastwood. A cara de durão que ele faz surgiu daí e do papel de policial linha dura interpretado pelo mesmo em Dirty Harry.
Os cenários e a produção do filme fazem crer que este realmente se passa numa região fronteiriça entre o México e os Estados Unidos, e não numa locação européia. A música do filme também é interessante, daquele tipo que dá pra sair assoviando por aí.

p.s. A influência do Western Spaghetti é sentida em diretores como Quentin Tarantino e Clint Eastwood, sendo que este dirigiu Os imperdoáveis (comentado aqui), um western revisado.

Por uns dólares a mais (Per Qualche Dollare in Più)
Itália/Espanha/Alemanha Oriental/Mônaco, 1965
Direção: Sérgio Leone
Duração: 130 min

Humano, demasiado humano

21 / Março / 2006
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Tudo que é humano me surpreende. Abstraindo as idiossincrasias dos atos teremos a mais pura essência daquilo que é o denominador comum destes seres tão fabulosos que habitam o planeta terra. Antes de tudo somos homens.
Antes de ser divinizado Jesus foi um homem e, partilhando conosco esta condição, ele é passível de todos os sentimentos, como qualquer mortal. É esse ser humano que é retratado em A Última Tentação de Cristo. Essa condição humana do nazareno causou rebuliço na época do lançamento do filme. Os puritanos (Ah, os puritanos…) logo bateram os pés e se rebelaram contra o filme. De fato, o filme não é nada bíblico, atrevendo-se a fazer uma releitura da história, mas essa ousadia em momento algum macula a imagem do Nazareno. Adicionar a Jesus a condição humana é engrandecê-lo. Se ser humano é depreciativo então nada mais tem salvação.
O filme começa com um Jesus (Willem Dafoe) perturbado pelas constantes alucinações que tem. Imagine-se como é ser o escolhido pelo criador! O desespero, a angústia é pungente. Ele está, nessa euforia aflitiva, trabalhando em sua oficina. Jesus é o único judeu que se dispõe a fazer as cruzes para o império romano. Logo entra pela porta um rebelde: Judas (Harvey Keitel). Esse é um grande amigo de Jesus e não se contenta em vê-lo trabalhar para os romanos. Jesus não se preocupa com a parcimônia da sua vida, a única coisa que o preocupa são as suas alucinações. Ele continua a fazer cruzes, até o dia em que decide ir para o deserto em busca de respostas para aquilo que tanto lhe aflige.
Aqui o messias parte para o evento que marcaria a sua vida. A sua primeira parada é em um prostíbulo (calma, não deduzam nada) onde ele vai ao encontro de Maria Madalena (Barbara Hershey) que é uma amiga de infância dele. Ao encontrá-la ela está seminua e exausta. Como os dois se conhecem desde a infância existe uma certa intimidade no ar. Maria logo lembra que tudo poderia ser diferente se ela tivesse encontrado respaldo em seu amor que nutria por Jesus. O messias logo recua e, para alegria dos puritanos, diz que é virgem e que têm o seu caminho traçado em algum lugar. Seguindo sua caminhada Jesus encontra uma espécie de retiro no meio do deserto. É aí que ele desenvolve a sua vontade de falar. Mas falar o quê? Ele não sabe. Só quer abrir a boca e falar ao povo. Certa noite ele sai da sua tenda e é surpreendido por um homem que fora contratado para te matar: Judas. Judas não cumpre a sua tarefa e, em troca, acompanha o nazareno na sua jornada. A princípio Judas nada entende dos princípios do seu messias, mas só o acompanha porque este promete explicá-lo no caminho.
Então Jesus parte para o encontro do povo. Ao impedir o apedrejamento de Madalena ele convoca os presentes para um discurso e, como mágica, as palavras fluem da sua boca. Daí em diante a história segue sem grandes mudanças, a não ser a ousadia proposta pela trama. A traição de Judas, por exemplo, não acontece nessa versão. Jesus pede a Judas que este o denuncie aos guardas romanos uma vez que este já sabia do seu destino.
A atuação de Willem Dafoe (Jesus) se destaca, e isso pode ser visto logo na primeira cena, quando Harvey Keitel (Judas) tenta convencê-lo a lutar contra os romanos. Keitel esbofeteia Dafoe com tanta falsidade (e frescura) que dá até vergonha comparar as duas atuações. Martin Scorcese faz questão de aproveitar as qualidades de Dafoe. Há várias cenas em que o ator está nú ou de peito aberto, mas ali já corre o sangue do personagem, não há nada a esconder. A roupa pode funcionar como artifício para facilitar uma interpretação. Dafoe atua com pouca ou quase nenhuma roupa, e dá um show.
Em A Paixão de Cristo (Estados Unidos, 2004) temos um Jesus pronto, preparado. Já no filme de Scorsese vemos como foi para um homem tornar-se lenda. As ironias aparecem em todo o filme, mas a mais saborosa é, na minha opinião, a parte em que Jesus senta para descansar em baixo de uma árvore e, ao ter fome, come uma maçã.
A revolta da igreja faz sentido, já que resolveu-se mexer numa imagem tão consolidada da instituição. Mas acima de todos os escândalos está o efeito produzido pela obra. Aquilo que nos desafia é muito mais gostoso do que o que já vem pronto. Ocorre que certas pessoas se ofenderam com o desafio e sequer viram todo o filme. Deveriam ter lido as minhas dicas sobre o filme e sua interpretação


A última tentação de Cristo (The last temptation of Christ)
Estados Unidos, 1988
Direção: Martin Scorsese
Duração: 163 min

Roxanne

19 / Março / 2006
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A história de Cyrano é muito conhecida, nem que se saiba dela somente algumas partes, ou melhor, uma parte do corpo do nosso herói: o seu enorme nariz.
Como toda boa história essa também tem um caso de amor. O protagonista é apaixonado por uma linda garota, Roxanne, mas não consegue dizer isso para ela, ou melhor, não pessoalmente. Por uma dessas loucuras do destino ele é um grande amigo dela e, por meio dessa grande amizade, descobre que ela está apaixonada por outro. Triste notícia, mas pode piorar, pois este outro é um colega de trabalho de Cyrano, e ele se vê obrigado a ser o cupido da história.
A situação é delicada, mas deliciosa. É um tipo de sadismo ser espectador de tal tormenta. O Rapaz por quem Roxanne se apaixona é nervoso a ponto de não saber o que dizer para ela. Já Cyrano é fluente, poético, e por causa disso começa a escrever cartas para Roxanne em nome do outro.

Roxanne se apaixona mais ainda quando lê as cartas. A sua vontade de encontrar o seu amante só aumenta. Ela pede então para o seu fiel amigo para que o seu amado encontre-a em sua casa. O amante estabanado não consegue fazer jus às belas palavras das cartas, sendo obrigado a levar Cyrano às escondidas para o encontro. O plano inicial era que Cyrano sussurraria um texto que logo seria repetido em voz alta pelo falsário. Mas o plano não dá certo, e o poeta tem que assumir o lugar do amante, travestindo-se deste e se usando da escuridão noturna para esconder o seu avantajado atributo. Assim ele derrama melífluas palavras nos ouvidos de Roxanne. Esta, ardendo em paixão, desmancha-se e convida o seu amante para uma noite de amores.

A história é muito bonita e, em essência, não sofre grandes modificações nessa adaptação feita em 1987. O romance é transposto da França no século XVIII para uma pequena cidade dos Estados Unidos no século XX. O Cyrano da história é C.D. Bales (Steve Martin) que é chefe do corpo de bombeiros da cidade. Chris (Rick Rossovich) é o homem por quem Roxanne (Daryl Hannah) , uma estudante de astrologia, se apaixona.
O que muda é o foco da história, que se desloca um pouco para o humor, não sendo este o humor da situação em si, mas o humor forçado pelas piadinhas feitas pelo elenco. O corpo de bombeiros, por exemplo, nunca apagou um incêndio, e os bombeiros são todos atrapalhados. Essa sobrecarga de piadas é inerente ao tipo do filme (produzido por Steve Martin) e não surpreende o espectador e nem estraga a experiência daquele que já está preparado para isso. É uma agradável comédia romântica.

Uma ótima adaptação muito fiel da história foi feita em 1990 no filme Cyrano, que tem Gerard Depardieu interpretando sublimemente o nosso herói narigudo. Mas esse filme é muito melhor do que este sobre o qual agora escrevo, e merece um post diverso.

Roxanne
Estados Unidos, 1987
Direção: Fred Schepisi
Duração: 107 min

Eastwood, Clint Eastwood.

14 / Março / 2006
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Certas coisas não são percebidas de pronto, demoram um pouco para cair a ficha. A pouco tempo revi o filme Sobre meninos e lobos, eis que no final aparece: Directede by Clint Eastwood. Certo, aí eu lembrei de Menina de ouro e As pontes de Madison, outros filmes que também foram dirigidos por Eastwood. Essa tríade ficou como uma curiosidade cinematográfica, guardada em minha inocente memória até o dia em que eu tive o prazer de assistir a um outro filme, Os imperdoáveis. Nada é por acaso, sábias palavras.
Bill Munny (Clint Eastwood) é um fazendeiro viúvo e pai de dois filhos que ainda lamenta a morte da sua amada esposa. Quem o vê correndo atrás de porcos não imagina que no passado, antes de conhecer a sua mulher, ele era um assassino temido e professado pelos contos do velho oeste como diz o seu parceiro: meaner-than-hell, cold-blooded, damn killer. Mas isso foi outro tempo. Há 10 anos este ex-assassino não bebe nem se desvia da conduta de um homem médio. É ese o Bill Munny que vemos na tela. Até que chega um caçador de recompensas chamado Schofield Kid disposto a liquidar uns cowboys desordeiros pela recompensa de $ 1000. Para este trabalho Kid não pensa duas vezes e vai atrás de um dos mais famosos assassinos do velho oeste: Bill Munny.
O interessante nos filmes de Eastwood é que as coisas fogem do roteiro habitual. O enfoque vai para uma nova região. Em Menina de Ouro vemos uma campeã de boxe se tornar uma enferma desejosa de eutanásia, percebe-se então que nada é linear, podendo sofrer mudanças significativas (e valorosas se bem efetuadas)
O nosso protagonista está numa encruzilhada: ele volta ao seu passado sombrio ou permaneçe na sua pacata (e fracassada) vida comum? Ele fica com a primeira opção. Depois de dez anos não sabe mais atirar tão bem como antes, muito menos montar à cavalo. Sua primeira providência é procurar o seu antigo companheiro (que também leva uma vida de fazendeiro) Ned Logan( interpretado pelo sempre melhor-amigo Morgan Freeman). Agora estes três bandoleiros partem para a pequena cidade de Big Whisky, em busca dos dois cowboys.
Os jurados de morte tiveram a cabeça postas a prêmio por um grupo de prostitutas desta pacata cidade. Uma garota do grupo teve o rosto retalhado por um dos cowboys. Os baderneiros ainda foram presos pelo Sheriff “Little Bill” (Gene Hackman), mas não receberam qualquer castigo, fora a obrigação de entregar seis cavalos ao cafetão das garotas. Indignadas as meretrizes juntam a quantia de mil dólares e espalham para os seus fregueses que quem matar os dois cowboys ganham a recompensa.
Isso seria comum em 1880, mas ocorre que na cidade de Big Whisky as coisas andam diferentes na mão do Sheriff “Little Bill”. Qualquer cidadão que porte armas na cidade logo é abordado (e às vezes bordoado) e obrigado a entregar as suas armas na delegacia. O Sheriff já viveu o suficiente para assistir a bandalheira dos pistoleiros, e saber que quem tem que se impor é a autoridade. A seriedade de Hackman (e a forma como ele massacra os caçadores de recompensa) são notáveis.
Bill Munny não está mais acostumado à vida de bandoleiro. Dormir ao relento se tornou um incômodo, e a sua chegada à Big Whisky é deplorável. Enfermo, tremendo de febre, ele e os seus dois companheiros partem para o bar onde estão as meretrizes para que seja acertado a forma de pagamento e para saber também onde e como encontra os cowboys. Nesse intere ocorre o primeiro encontro entre Bill Munny e o Sheriff “Little Bill”. Para evitar confusão Bill mente o seu nome, mas isso não evita de levar coronhadas e chutes do Sheriff. O nosso bandoleiro não consegue se agüentar em pé.
Os três caçadores de recompensa vão para um celeiro abandonado para Bill Munny se recuperar, e de lá partem para cumprir a sua missão.
O conflito entre o passado e o presente de Bill Munny é evidente. Do homem que ele era ficaram as cicatrizes, as histórias, tudo banhado pelo Whisky que ele fazia questão de consumir em tempos antigos. A sua nova vida de sóbrio o obriga a pensar antes de agir, e dizer coisas como

Matar um homem é uma coisa do inferno. Você tira tudo o que ele tinha e tudo o que ele poderia ter.

O seu novo companheiro, aquele que lhe fez a proposta de ir matar os cowboys, nada mais é do que um novato, nunca havia matado ninguém. Depois de seu primeiro assassinato ele desiste de ser o que queria, e resolve voltar para a sua vida. Ninguém pode ser o que não é.

Os Imperdoáveis (Unforgiven)
Estados Unidos, 1992
Duração: 131 minutos
Direção: Clint Eastwood

War jokes

8 / Março / 2006
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A ocupação do República do Vietnã se deu em 1955, com o primeiro envio de tropas americanas para para a região. Até 1965 as coisas foram pacíficas, e é exatamente nesse último ano de paz que chega à terra o aeronauta Adrian Cronauer (Robin Williams) para comandar um programa de rádio em Saigon. Conhecido pela irreverância e animação este DJ americano faz sucesso por onde passa, conquistando a maioria dos seus ouvintes. A sua missão é fazer humor, descontrair os soldados que ocupam a região sul daquele país em ponto de ebulição. As notícias diárias a serem dadas no seu programa não podem tocar em qualquer assunto que possa comprometer os planos dos EUA.
Nesse íntere o cativante apresentador se encanta por uma bela vietnamita, e faz de tudo para conseguir conhecê-la. De início ele conquista a amizade do irmão da moça que é, por pura ironia, um terorista procurado pelas tropas americanas .
E assim o filme se desenrola. As piadas do Robin Williams são bem contextualizadas com o período em que se passa o filme, mas o que chama a atenção é o fato dele brincar com algo que está no sangue norte-americano: a guerra. Tudo bem que o filme não chega a ser uma crítica pesada a essa forma de “democratização” usada pelos EUA, mas não deixa de ser um diferencial para o filme. Além das piadas pode-se ver o quanto é capaz esse tão renomado comediante. Como no filme ele tambám é comediante temos momentos em que alguém lhe pede para ser engraçado, e ele descarrega toda sua ironia e talento.
Mas tudo isso não me cativou. Das emoções presentes no filme a que mais se desenvolve é a angústia causada pela guerra. Aquela situação de quem é o inimigo aparece, mas não se desenvolve. Constitui portanto um bom entretenimento, sem grandes esforços.
Um filme bem interessante sobre o Vietnã já foi comemtado aqui, e recomendo. Vejam a crítica de As luzes de um verão.

Bom dia Vietnã (Good morning vietnam)
Estados Unidos. 1987
Direção: Barry Levinson
Duração: 121 minutos

Um Filme Fantástico

6 / Março / 2006
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Em 1497 Vasco da Gama parte de Portugal em busca do caminho marítimo para a índia afim de achar uma rota mais segura para o trânsito de especiarias. Em 2003 Manoel de Oliveira embarca Rosa Maria ( Leonor Silveira) e sua filha Maria Joana (Filipa de Almeida) em um cruzeiro marítimo em busca da história da civilização ocidental.

Rosa Maria é uma professora de História da Universidade de Lisboa que está indo ao encontro de seu marido (um piloto da aviação civil) em Bombaim. Ela aproveita a oportunidade e faz um cruzeiro pelo mar mediterrâneo visitando, junto com a sua filha, alguns pontos históricos que de alguma forma ajudaram a moldar a história do ocidente.

A primeira parte do filme é feita em forma de travelogue. Somos convidados a viajar junto com os personagens e conhecer os pontos históricos. A primeira parada é feita em Marselha (França). Uma breve conversa de Rosa Maria com um peixeiro sobre as reservas de petróleo francesas (que ficam depositadas em navios em Marselha) aponta ao espectador a qual ponto nós ficamos presos a este recurso natural. Aí também se encontra uma placa que diz ser Marselha o ponto de onde irradia a civilização para o ocidente. A seguir somos convidados a conhecer Nápoles (Itália). Uma breve visita à destruída Pompéia serve de escusa para que reflitamos sobre a impotência do homem contra a natureza. Aí também já se esboça uma idéia de religião, quando Rosa Maria diz que os habitante e Pompéia foram punidos pela sua má conduta. A terceira parada é em Atenas (Grécia). Na acrópole se vêm as ruínas de imensos templos e teatros, lembranças de um tempo áureo do qual só restam ruínas. Ali a nossa dupla desbravadora encontra um padre ortodoxo, e logo se vê as duas correntes da mais influente religião no Ocidente: a Católica. Em Istambul (Turquia) visitamos a Igreja de Santa Sofia, uma igreja construída em 336 d.c que virou mesquita em 1453, quando Constantinopla foi conquistada pelos turcos, e museu em 1935. Entram em cena as divergências religiosas e a capacidade irracional do homem de guerrear. Já deu para perceber o quanto estamos aprendendo? Em Cairo (Egito) fala-se algo sobre a força do homem. Cita-se o trabalho braçal usado para desafiar a geografia e construir o Canal de Suez. Passamos agora para o Mar Vermelho e fazemos a última parada do filme em Adem ( Iêmen). Depois das viagens passamos para a segunda parte do filme. O diálogo assume o lugar o silêncio e das perguntas freqüentes da pequena Maria Joana. O Comandante John Walessa (John Malkovich) se encontra com três ilustres tripulantes do navio para uma conversa singular: Delfina (Catherine Deneuve), uma famosa empresária francesa; Helena (Irene Papas), uma atriz e cantora grega e Francesca (Stefania Sandrelli), um modelo italiana. Os quatro personagens conversam sobre carreira, amor, sucesso, fracasso e civilização. Cada uma fala em sua língua materna, o que criam, segundo o próprio comandante, uma nova Torre de Babel. Numa segunda vez Rosa Maria é convidada para se reunir ao seleto grupo. Como só o Comandante entende português todos são obrigados a falar inglês. Daí o filme segue para um final surpreendente, que me faz calar, como se fosse a primeira vez que eu o visse. Nessa ousada epopéia Manoel de Oliveira destaca um personagem e lhe dá uma característica toda especial. Maria Joana, a pequena garotinha, é o que há de singelo no filme. As suas perguntas são pueris e até irônicas, “coisa de criança”.

Ao perguntar o porquê dos homens fazerem guerra a sua mãe responde, sempre didática, que isso é da natureza dos homens. Logo Maria Joana rebate: O que é natureza? Somos crianças que acompanhamos essa criança em tudo o que ela não sabe sobre o vasto campo da humanidade. O final, aquém de algo bárbaro e desumano, é só mais uma lição de humanidade.O silêncio também é notável nesta obra prima. Ele ocupa grande parte do filme, e não poderia ser mais apropriado. Momentos de contemplação devem ser calmos, tranqüilos, mudos.

Um Filme Falado
Portugal, 2003
Direção: Manoel de Oliveira
Duração: 96 min

Sobre ser humano

24 / Fevereiro / 2006
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Nada mais abjeto do que ser negado a um ser humano a sua condição de humanidade. Em O Homem Elefante (EUA/ 1980) temos uma boa idéia de como é importante a garantia da dignidade humana.
O filme conta a história de John Merrick (interpretado por John Hurt), que é a principal atração de um circo de horrores onde os “espetáculos” constituem na exibição de seres humanos portadores de algum tipo de deficiência física ou mental. John Merrick recebeu o epíteto de Homem-Elefante por ser portador da síndrome de Proteus (para saber que diacho é isso clique aqui) que afeta 90% do seu corpo, fazendo-o ter a aparência de um paquiderme. Ele tão desprezado como ser humano que é tomado por objeto pelo dono do circo de horrores, que diz possuí-lo. Tudo muda quando o Dr. Frederick Treves (Anthony Hopkins) vê esse espetáculo degradante e se interessa em examinar clinicamente a anomalia de John Merrick.
A partir deste interesse a vida do nosso infeliz protagonista começa a mudar. Ele é acolhido em um hospital londrino, e começa a ser tratado como um homem doente, e não como um elefante deformado. Nota-se que a curiosidade pela sua anomalia ainda persiste, só que agora mudou de “classe”. O seu leito passa a ser frequentado pela nata da sociedade londrina
O filme é dirigido por David Lynch. Aqui não vemos nada comparado à narrativa surreal de Cidade dos sonhos. De maneira convencional, apelando até para a filmagem em preto e branco, o espectador é submetido a uma viagem a outra época.
A idéia de pessoa saudável confunde-se com a de pessoa humana, a ponto de que, em determinado momento do filme o Dr. Frederick Treves surpreende-se: Ele sabe até falar!. A descoberta do ser humano ocorre gradualmente, quando o Homem Elefante passa a portar-se de maneira diferente, aceitando a sua condição humana.

O Homem Elefante ( The Elephant Man)
Estados Unidos – 1980
Direção: David Lynch

Alfie – O sedutor

15 / Janeiro / 2006
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Alfie (Jude Law) é um inglês que foi morar nos E.U.A, crente na lenda da terra das oportunidades. Mas Alfie une ao seu sonho (o de se tornar milionário) o seu estilo, levando uma vida dedicada às tantas mulheres que aparecem pela frente, belas mulheres, afinal.
Até então nada de mais… O europeu galanteador é um arraso com as mulheres (solteiras ou casadas), trabalha como motorista de limusine e compartilha com o seu único amig e colega de trabalho um projeto para um negócio próprio… Até então tudo bem com Alfie, ele é o centro do universo. Até que surge um problema, e aí o filme começa a ser algo novo. Uma das suas tantas amantes diz estar grávida, o que é uma quebra na sua rotina, obrigando-o a repensar todo a sua “atuação” nesse mundo. Como as desgraças nunca caminham sozinhas ele, nessa reflexão, arranja vários problemas. Ele é um cara solteiro que, ao mesmo tempo que tem tudo na vida, não tem nada.


Alfie
Estados Unidos: 2004
Direção: Carles Shyer
Duração: 100 min

O drama que salva

10 / Janeiro / 2006
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Uma grande atuação é, indubitavelmente, algo muito bom de ser visto. O ator que consegue tomar para si o seu papel, encarnar a sua situação, consegue passar isso através da tela para o espectador. Mas isso não basta para garantir a qualidade do filme.
Vera Drake (Imelda Staunton) é uma amável senhorinha inglesa que adora um chá (senão ela não seria inglesa né!). O cenário é a Londres pós-guerra, na década de 50. Vera é empregada doméstica e leva uma vida modesta em uma pequena casa onde moram seus dois filhos, já adultos, e o seu marido Stan (Philip Davis), que é mecânico de automóveis. Pronto… cenário construído: família honesta, trabalhadora, unida, feliz e estável. Aí entra o segredo de Vera Drake para bagunçar a história: ela faz, a mais de 20 anos, aborto em garotas que, como ela diz, “precisam voltar a menstruar”. É só… a história já acabou…
Caro leitor, não ache que eu fiz a maldade de contar o fim, ou que estraguei o filme.. não falei nada demais. O segredo de Vera Drake se encontra na sinopse do próprio DVD, e o filme não acaba assim.
Quando o segredo é revelado Vera Drake se transforma, e aí vem a parte boa do filme, a atuação de Imelda Stauton. As histórias que ocorrem ao redor da principal são interessantes, tudo gira em torno do casamento, da gravidez (desejada ou indesejada) mas a única história do filme que tem começo, meio e fim é a da protagonista… é ela que segura a peteca do filme.
O segredo de Vera Drake também pode ser visto, no âmbito do direito (vou puxar a sardinha pro meu lado), como um pacote de problemas para os juristas. Destaco a questão do aborto, em suas várias situações (em caso de estupro, gravidez indesejada ou mudança de planos do casal), que é demonstrada no filme. Em termos de julgamento podemos observar o sistema inglês, que é tão diferente do nosso. No Direito Penal podemos argüir sobre a culpabilidade de Vera Drake nos abortos, e, na aplicação da pena, ainda cabem questões sobre a individualização da pena. Ou seja, há algo no filme além da interpretação da atriz que merece também ser apreciado.

O Segredo de Vera Drake (Vera Drake)
Inglaterra: 2004
Direção: Mike Leigh
Duração: 125 min


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