O filme tem um sentido, um princípio, um segredo que é desvendado de forma diferente de acordo com as variantes de cada obra, qual seja, o roteiro, o diretor, os atores… O importante é grifar a necessidade do filme nos dizer algo. Sem esse “algo” não haveria sentido em dar atenção à obra. A passividade do expectador é compensada com a capacidade deste perceber os elementos do filme e captar, por fim, ao final da obra, a mensagem. Do outro lado temos o diretor e o roteirista, seres oniscientes que manipulam a obra ao seu gosto para transmitir de uma forma ou de outra a mensagem final. Isso não é uma guerra, mas sim uma parceria: nós, expectadores, versus eles, fazedores de filme.
Ciente desses princípios sentei-me pacientemente ante a exibição de Ó paí ó, no afã de não só entender a obra, como um filme que é, como também tentar acompanhar o entusiasmo dos meus amigos quanto à película.
O filme começa maravilhosamente com a apoteose que é o tão admirado ator baiano Lázaro Ramos interpretando o carpinteiro Roque. Nos minutos iniciais vemos que além de ser trabalhador Roque é um cantor de primeira qualidade ao entoar uma magnífica canção carnavalesca. Durante a canção entra a segunda personagem do filme, a linda Rosa (Emanuelle Araujo) que numa cena magnífica mostra todo o seu potencial numa cena de nudez muito promissora. Promissora para a carreira de modelo, porque em termos de atuação a garota não teve oportunidade de fazer nada. Na verdade nada é a palavra de ordem deste filme. Na mixórdia deste roteiro vemos vários fragmentos de filme, mas nada muito bem construído, ou melhor, nada foi sequer construído…. Vamos explicar melhor para a crítica não ser taxada de vazia.
Lázaro Ramos é um ator que guarda muita expectativa. O perfil teatral do ator é muito aclamado, assim como o do Matheus Nachtergaele. Quando Ramos atua o filme fica bom, real, mas parece que o elenco e a direção não o acompanha, não o ajuda.
Parece que o filme quer retratar a “realidade” do Pelourinho. Para isso ele se passa durante o carnaval, quando a “baianidade” está à flor da pele e, portanto, mais fácil de ser captada pelas lentes da Monique Gardenberg. Querendo captar essa baianidade temos atores com um sotaque e trejeitos carregados, sincretismo religioso e uma crônica social escrachada. Temos na-da. O sotaque e trejeitos adotados pelo filme são falsos na medida em que, ao serem interpretados, caem como um tijolo pesado demais para ser carregado por certos atores (como o chulo Boca, interpretado por Wagner Moura). O sincretismo religioso é rico e profundo demais para ser exaurido com meia dúzia de piadas de gosto duvidoso, estilo A praça é nossa e Zorra total. Como o filme não tem início nem meio a crônica social ( o turismo sexual, o tráfico de drogas e os grupos de extermínio) não passa de tempo perdido, artifício ineficaz para constituir drama.
Enquanto Lázaro Ramos se esforça para criar ao menos um romance com a pretendente a protagonista (a Rosa) esta não faz nada. O casal é incapaz de construir um diálogo, e o maior entendimento dos dois se dá quando ela dança uma música que ele canta.
Falando em música o filme perde ainda a chance de ser musical, já que as músicas, não obstante ocuparem grande parte da película, não tem uma relação com os fatos. só um samba, lá no meio do filme, tem um pouco de sucesso.
O final chega com um atraso de umas duas horas, depois de uma espera ansiosa. Para complicar mais um pouco minha angústia lembro-me de ter visto o símbolo da ANCINE e do governo do Brasil no filme, ou seja, dinheiro dos meus impostos, sangue do meu sangue.
Brincadeiras a parte o filme fica no meio do caminho. Um dos filmes que chegou no fim da estrada foi Amarelo Manga, com o aqui citado Matheus Nachtergaele.
Ó paí, ó
Brasil, 2007
Direção: Monique Gardenberg
Duração: 98 min
